Uiler Costa-Santos

Morada feita das tempestades do dilúvio

Bonaventure Soh Bejeng Ndikung · 2022 · Barlavento

Texto curatorial do capítulo 5 da 13ª Rencontres de Bamako – Biennale Africaine de la Photographie, 2022-2023. Tradução livre do original em inglês.

13ª Rencontres de Bamako – Bienal Africana de Fotografia, 2022-2023

Sobre multiplicidade, diferença, devir e herança

Morada feita das tempestades do dilúvio

De fluxos, transições e sobrenaturalidade

Por todos os critérios e padrões da arte, “O bebedor de vinho de palma”, de Amos Tutuola, e “A estrada faminta”, de Ben Okri, estão entre as mais, na falta de palavra melhor, sofisticadas invocações e revelações das manifestações de múltiplos seres que criam, negociam, existem dentro e entre mundos variados, e neles habitam.

O bebedor de vinho de palma de Tutuola parte em busca do seu vinhateiro na terra dos mortos, a “Cidade dos Mortos”, onde se dizia que ele vivia entre os mortos. Nessa jornada ele encontra a morte e luta com ela, atravessa florestas sem fim, onde conhece um perfeito cavalheiro cujo corpo era feito de partes alugadas de outros e que, chegada a hora, as devolveu e pagou o aluguel de cada parte. No caminho, o bebedor de vinho de palma também encontra animais do tamanho de elefantes, com unhas de dois pés de comprimento, a cabeça dez vezes maior que o corpo, uma boca enorme cheia de dentes de um pé de comprimento e grossos como chifres de vaca; na cabeça, cinco chifres, e as quatro patas do tamanho de toras de madeira. Tutuola escreve sobre casas em árvores com salões de dança para 300 pessoas, e sobre mulheres que engravidam por um polegar inchado e dão à luz filhos adultos.

Ben Okri escreve sobre reis que às vezes apareciam na forma de um grande gato, de barba vermelha e olhos de safira esverdeada, e que, o mais interessante, tinham nascido incontáveis vezes. Azaro, personagem principal de Okri, tampouco era estranho ao ofício de nascer várias vezes ou de circular entre mundos. Vivia acompanhado de companheiros espirituais que provocavam a sua oscilação entre o mundo dos espíritos e outros mundos. Okri também evoca espaços “além do inferno, além das terras dos espíritos onde os nossos ancestrais passam o dia a propor uns aos outros enigmas impenetráveis”, ou reinos e espaços que são paisagens do gênio e, supostamente, os mundos de antes do nascimento, os mundos dos sonhos puros e dos sinais.

Todo esforço de encaixar essas histórias como realismo mágico, surrealismo, sub-realismo ou o que seja inevitavelmente fracassa, pois tende a reduzi-las.

O que essas histórias têm em comum é a capacidade de criar mundos que desafiam as categorias de real, genuíno, concreto, efetivo, existente, assim como ignoram por completo as categorias que sugeririam o oposto, como imaginário, suposto, ficcional, imitação, artificial.

Desde tempos imemoriais, (alguma) arte tem oferecido a possibilidade de navegar por diferentes espaços, diferentes mundos. A arte tem facilitado a oscilação — às vezes suave, sedutora, enganosamente bela e apaziguadora, às vezes como um tour de force, que rasga como trovão e choca de modo insustentável — entre o que se entende por real e por imaginário, e tem servido de mediadora para acomodar esses espaços e nos habituar a eles. A vida é, de fato, uma negociação constante entre esses mundos; e se essa transição às vezes parece uma descida por um terreno escorregadio, outras vezes deve parecer uma caminhada por uma estrada de pedras coberta de lava quente.

Neste capítulo, intitulado “morada feita das tempestades do dilúvio — De fluxos, transições e sobrenaturalidade”, da 13ª edição dos Encontros de Bamako, artistas dos quatro cantos do mundo africano foram reunidos porque as suas obras, de um modo ou de outro, tematizam fluxos de vários tipos: movimentos físicos e geográficos através de zonas e de fronteiras, e que transcendem os domínios do tempo — em deslocamento constante entre passado, presente e futuro, sempre questionando, para não dizer refutando, a linearidade do tempo, e defendendo outras compreensões do tempo como cíclico, espiral, descontínuo e desarmônico. Nas suas obras eles evocam a impossibilidade da estagnação, insinuando, direta ou tangencialmente, que tudo está em movimento e que, embora se fale proverbialmente em marcar passo, o tempo nunca está parado. Algumas das obras reunidas neste capítulo também se ocupam da onipresença da espiritualidade. Não a religiosidade redutora, de uma só ideia, monoteísta, de beco sem saída, mas uma ideia de espiritualidade mais ampla e holística, que tudo abraça e sempre oferece. Talvez seja essa espiritualidade, que também pode ser entendida como uma espécie de sobrenaturalidade, a mediadora, a condutora, a facilitadora, a catalisadora entre múltiplos mundos.

Bonaventure Soh Bejeng Ndikung